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Revista Interdisciplinar Sulear


Capa da revista

Editorial

Aspectos do cotidiano relativos a espaço e orientação traçam leituras de mundo e impregnam os contextos socioculturais dos quais se originaram sentimentos, conceitos, representações ideologicamente orientados que, embora digam da realidade vivida, consideram o real a partir de perspectivas hegemônicas, em espacial, as orientadas espacial e temporalmente pelo eixo Norte–Sul. Com vistas a contribuir para a superação do pensamento “colonizado” que essa forma de realidade  produzida enseja é que a Revista SULEAR nasce.

Sulear foi um termo utilizado por Paulo Freyre no livro Pedagogia da Esperança (1994, p.218-219) para situar um contraponto ideológico e epistemológico ao termo nortear. Com  termo Sulear o patrono da educação brasileira visava a superação intelectual da relação paradigmática da dominação Norte–Sul e chamando a atenção para a necessidade de a produção latino-americana e brasileira assumir sua herança colonial, e conhecendo-a, adotar um olhar mais crítico para as receitas de compreensão transplantadas de outras realidades para a região, convidando-nos a superar a autodesvalia e o complexo de inferioridade que nos impedem de realizar a vocação humana ontológica para o Ser Mais.

Com o ímpeto de autonomia e orientado para avançar cientificamente adotando um olhar científico mais próximo e condizente com nossa realidade a Revista Sulear emerge como um espaço de divulgação científica interdisciplinar que busca lançar luz sobre pesquisas que consideram a multiplicidade de enfoques como forma de superação dos limites da especialização.

Fomentando a integração de saberes e conhecimentos disciplinares, religando fatos, fenômenos, informações e conhecimentos dispersos para conjugar outro tipo de realidade possível, esse espaço de divulgação de pesquisas acadêmico-científicas como se pode ver nesta primeira edição de Sulear,  a partir dos oito artigos que a compõe, produz um espaço contributivo e de fomento a reflexão sobre diferentes dimensões educativas, seus valores, fundamentos teóricos e práticos.

Verá o leitor que, a partir da focalização dos aspectos socioculturais da realidade destacada nos artigos que o conjunto da produção aqui apresentada possibilita o entrelaçamento de conhecimentos e temáticas no sentido de pavimentar um caminho interdisciplinar relevante para a produção e fortalecimento de uma educação decolonial e libertadora.

A partir dos artigos vê-se que experiências vividas, quer sejam individuais ou sociais são apropriadas e que os sentidos e significados que sobre elas se configuram são sempre dependes dos pontos de "vista", que nos referenciam, e que dessa mirada é que percebemos nosso entorno e até de como os outros espaços foram e são produzidos. Assim, na medida em que esses processos se desenvolvem vão sendo configuradas olhares para a realidade que se transformam na dinâmica da constituição das vivências.

Dividindo os texto dessa edição a partir das problemáticas tratadas, temos pesquisas que focalizaram aspectos teórico-práticos do trabalho em suas implicações com a sociedade como é o caso da reflexão de Milton Oliveira e Walter Ude discutindo e refletindo sobre o trabalho profissional de psicólogos nos processos de adoção; ou quando adentramos a produção dos sentidos e significados do lazer de recuperandos no interior do sistema prisional apresentado por Walesson Gomes e Eliane Machado. Noutra direção, entre os artigos, encontramos importantes reflexões sobre os aspectos teórico, metodológicos em sua relação com a pesquisa como o texto de Patrícia Doroteu em sua reflexão sobre o uso de história oral nos estudos sobre profissão docente ou na discussão produzida por Bruno Pereira, Eliane Ferreira de Sá e Mariana Fonseca sobre os usos de recursos fílmicos por professores da educação básica e ainda as reflexões tecidas por Costa sobre o pensamento decolonial a partir de Mariátegui.

Além desses aspectos profissionais a revista nos brinda com artigos que focalizam os aspectos teórico, metodológicos e práticos do fazer docente de professores da educação básica. Desses, destacam-se os trabalhos de Marciana David que focaliza o ensino do conceito de saturação química a partir da experimentação com alunos.

Cada artigo aborda aspectos diferentes do fazer educativo, contudo, a partir da leitura dessa produção, orientados pela integração, conjugação e flexibilização desses saberes, novos e renovados caminhos para os conhecimentos emergem.

É assim, buscando a superação da alienação acadêmico-científica às questões do cotidiano, às dualidades e dicotomização da realidade, bem como abertura para questionamento e flexibilização de certezas e simplificações, que nós da Revista Sulear buscamos contribuir para superar o que o filósofo Japiassu (1976) considerava uma “patologia do conhecimento”, impensado, tal como proposto por Segrera (2005) nossa produção de conhecimento.

Boa leitura.

Prof. Dr. Luiz Carlos Felizardo Junior[1]

Equipe editorial

 


[1] Licenciado em química e pedagogia, especialista em ensino de ciências da Natureza, com mestrado em Educação e doutorado Estudos do Lazer. Membro do Grupo de Pesquisa Juventude Educação e Cidade (GPJEC/UFMG) e Professor (SEE/MG).