“MAS A QUE CUSTO?”

SAÚDE MENTAL E BEM-ESTAR DE MULHERES IMIGRANTES RACIALIZADAS NOS CORREDORES UNIVERSITÁRIOS DO VELHO MUNDO

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Autores

Palavras-chave:

Mulheres imigrantes racializadas; Estigma; Bem-estar; Saúde mental; Universidade.

Resumo

Fruto de pesquisa de abordagem interseccional e socioecológica advinda da parceria entre o Instituto Andaluz da Mulher (IAM) e a Universidade de Sevilha (US), este artigo volta-se à discussão acerca dos impactos na saúde mental e bem-estar de mulheres imigrantes na US. Trata-se de discussão que, voltando-se aos atravessamentos diários experienciados por discentes, docentes e/ou corpo técnico-administrativo, aponta para dinâmicas históricas de poder, destacadamente em sua intersecção com as categorias de gênero e raça. As considerações aqui dispostas são oriundas de quatorze entrevistas com mulheres imigrantes racializadas, estruturadas em torno da análise SWOT+P, em diálogo com o modelo ecológico em seus 4 níveis, de modo a nos relatos dessas mulheres identificar: a opressão internalizada; a discriminação relacional; a discriminação comunitária/organizacional; e, como última categoria, a discriminação sócio-política. Os resultados das entrevistas apontam para barreiras estruturais que, históricas, persistem; revelando contextos de discriminação, estresse e solidão vivenciados pelas mulheres migrantes que na US atuam. Tais contextos são sentidos em maior ou menor grau de acordo com o tempo de estada na universidade e, mais importante, com a estabilidade econômica que experienciam em diálogo com o lugar que ocupam. A despeito dos desafios, todas as respondentes revelaram protagonismo e resistência, inclusive no que diz respeito à proposição de inciativas que, culturalmente sensíveis, fomentam o acolhimento, inclusão e bem-estar da comunidade acadêmica, destacadamente daquela estrangeira que à universidade acessa.

Biografia do Autor

Dr. Douglas Tomácio, Universidade de São Paulo - USP

Pedagogo pela Universidade do Estado de Minas Gerais (UEMG), é mestre em Educação pela Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), doutor em Educação pela Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) e doutorando em Mudança Social e Participação Política pela Universidade de São Paulo (USP). Perpassou pela graduação em História, bacharelado e licenciatura, na Pontifícia Universidade Católica de Minas Gerais (PUC-MG), onde também se especializou em Docência e Gestão do Ensino Superior. Nessas andanças, percorreu ainda o curso de Letras, habilitação língua inglesa, na Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e na Universidade de São Paulo (USP). Como é bicho que não para quieto, (des)aventurou-se na licenciatura em Educação Física e no curso técnico de Teatro, este pela Fundação Clóvis Salgado (Palácio das Artes), onde, junto àqueles que ecoam arte-resistência, foi reconhecendo-se nessas tessituras de artes do viver. Profissionalmente, atuou como professor e pedagogo, nas redes pública e privada de ensino (nos âmbitos médio, fundamental I e II, infantil e educação profissional); como educador social em espaços não escolares; como tutor e professor/coordenador formador na EaD; e como docente na graduação e pós-graduação, com destaque para as áreas de Educação e Direitos Humanos e Cidadania. Atualmente, é pesquisador em Ciências Aplicadas e Políticas Públicas, da Fundação João Pinheiro (FJP), e pesquisador associado à Universidad de Sevilla (US, Espanha), onde compõe a equipe do Coalición para el Estudio de la Salud, el Poder y la Diversidad (CESPYD). Integra ainda os grupos de pesquisa ''Trabalho, Movimentos Sociais Populares e Educação do Campo'' (TRAME) e ''Trabalho, Política e Subjetividade'' (TRABPOLIS), que, vinculados ao CNPq, abrigados são pela Faculdade de Educação, da UFJF, e pelo Centro de Educação e Ciências Humanas, da UFSCar. Como interesses de pesquisa, tem se dedicado às questões referentes ao trabalho docente, destacadamente em sua relação com as dimensões de precarização, adoecimento e suicídio; à educação e diversidade, no âmbito das relações étnico-raciais e questões de gênero e sexualidade; e à formação de professores na contemporaneidade, sob a perspectiva crítica.

Drª Rocío Garrido, Universidad de Sevilla

Doutora em Psicologia e professora no Departamento de Psicologia Social da Universidade de Sevilha.
Minha área de especialização concentra-se em pesquisa e ação participativas em relação a diversas comunidades, a partir de uma perspectiva interseccional. Há mais de dez anos, sou membro do CESPYD (www.cespyd.es), o Centro de Pesquisa e Ação Comunitária da Universidade de Sevilha, onde liderei e participei de diversos projetos nacionais e internacionais focados na promoção do bem-estar e empoderamento de comunidades étnicas minoritárias.
Além disso, minhas áreas de ensino estão relacionadas à Psicologia Social e Comunitária, bem como a Métodos de Pesquisa, Gênero e Diversidade. Também trabalhei como consultora e formadora para organizações públicas e ONGs em questões de igualdade, gênero e interculturalidade. Por fim, sou voluntária em diversas plataformas sociais e redes de defesa dos direitos humanos para contribuir com a justiça social dentro e fora da universidade.

Mª Blanca Vera , Universidad de Sevilla

Doutoranda e professora adjunta do Departamento de Psicologia Social da Universidade de Sevilha, Sevilha, Espanha.

Drª Anna Zaptsi, Univeridad de Sevilla

Professora da Universidade de Sevilha e do Centro Universitário EUSA (Espanha). Possui doutorado em Comunicação Audiovisual pela Universidade de Sevilha. É graduada em Psicologia pela Universidade Aristóteles de Tessalônica (Grécia) e possui pós-graduações em Psicologia Escolar e Cooperação Internacional para o Desenvolvimento. Além disso, concluiu uma especialização em Psicoterapia Sistêmica Familiar. Seus interesses de pesquisa incluem Psicologia, Estudos de Gênero e Feminismo, Diversidade e Interseccionalidade, e Estudos de Cinema e Televisão.

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Publicado

26-04-2026

Como Citar

Tomácio, D., Garrido , R., Vera, B., & Anna Zaptsi, A. (2026). “MAS A QUE CUSTO?” : SAÚDE MENTAL E BEM-ESTAR DE MULHERES IMIGRANTES RACIALIZADAS NOS CORREDORES UNIVERSITÁRIOS DO VELHO MUNDO. Revista Interdisciplinar Sulear, (22), 149–167. Recuperado de https://revista.uemg.br/sulear/article/view/10956