Sobre a Revista

A Revista Histórias Públicas tem o objetivo de promover um espaço de publicação e divulgação das atividades de pesquisa, ensino e extensão, incentivando reflexões, especialmente, sobre o campo da história pública, assim como a divulgação do conhecimento histórico, a utilização de novas tecnologias na área e a inovação do ensino de história. 

Chamada abertas para o Dossiê (2º. Sem. 2022):

Ditadura e Autoritarismo: necropolítica, negacionismo, arquivos e usos do passado

Organizadoras:
Janaína de A. Teles (UEMG)
Beatriz Kushnir (UNIRio)
Stella Segado (TeCMe - Argentina)

Cronograma: 

Submissões: até 15 de julho de 2022

Publicação: dezembro de 2022

Este dossiê objetiva ampliar as análises e críticas do nosso tempo, no qual os grandes deslocamentos populacionais e a globalização, sob a égide do militarismo e do capital, tal como afirma Achille Mbembe, vêm impondo retrocessos significativos às experiências democráticas ao redor do mundo. Neste contexto, ganha particular interesse a regressão observada no Brasil e em grande parte da América Latina. Sendo estes espaços, nosso ponto de partida para as reflexões sugeridas. Por outro lado, a violência vivenciada nas democracias, caracterizadas por fundas raízes autoritárias, sobretudo, em nossa região, não é nova e exige atenção, tendo em vista que estão impregnadas pelos legados do autoritarismo e do racismo. A matriz histórica da democracia moderna, com efeito, sustentou-se na ordem imperial-colonial e na escravidão, cujos ecos se fazem sentir na atualidade.

Desde a perspectiva da História do Tempo Presente, as tiranias do século XX revelaram catástrofes e repetições traumáticas da violência, além de formas e proporções inéditas de controle da memória social. Na América Latina, por exemplo, além do legado da escravidão e do genocídio indígena, a onda autoritária que tomou conta da região desde os anos 1960 deixou como herança milhares de vítimas de desaparecimento forçado, transformando o luto e o lembrar em um problema sem fim. No Brasil, em especial, os familiares das vítimas fatais da ditadura militar ainda enfrentam muitos obstáculos para encontrar e identificar os restos mortais de seus parentes, ter acesso às informações sobre as circunstâncias das mortes, e punir os responsáveis.

Em contrapartida, a emergência de uma memória construída figurou entre as principais implicações e repercussões políticas e culturais das guerras e ditaduras da história recente. A era do testemunho, cuja ressonância é constantemente ameaçada pela atuação estatal, que busca apagar seus crimes e reescrever o passado, impôs uma reconfiguração da temática da memória, do papel dos vitimados, militantes e do testemunho. Desde a “virada subjetiva”, muitas das formas instituídas de memória social tomaram como preocupação central o registro e a evocação desses crimes e seus sobreviventes, gerando controvérsias e disputas a respeito de enfoques nacionais e políticos que legitimam histórias construídas pelo ou sobre o Estado, mas também sobre a relação entre memória e história e a construção de uma história “a contrapelo”, que desafie as generalizações de cunho iluminista e eurocêntrica, tal como ressaltado por Walter Benjamin.

A questão do direito ao luto e a desigualdade de acesso a ele, é um tema político fundamental desde Antígona. Atualmente, mais dramático, sobretudo, com o advento da necropolítica, onde a administração da morte pelo Estado, ou da pandemia do novo Coronavírus, estão na ordem do dia. Autoras/es como Judith Butler questionaram a vergonha com que se cobriu os mortos das epidemias de AIDS, assim como o ocultamento dos cadáveres da “guerra contra o terror” dos EUA, após 11 de setembro de 2001. A decisão sobre quais pessoas são dignas de luto é política, orquestrada pelo Estado com o objetivo de obter maior controle social. Esta reflexão pode ser estendida às milhares de vítimas da escravidão, do genocídio indígena ou aos crimes de lesa-humanidade cometidos pelas ditaduras na América Latina, que impuseram a censura e o desaparecimento forçado, a fim de evitar a comoção pública por aqueles considerados “inimigos do Estado” ou “outros”, passíveis de serem subjugados e exterminados. Esta “outrificação”, dispositivo de poder central desde o período colonial, continua a ressoar repetidamente na atualidade.

Desde essa perspectiva, convidamos as autoras/es a compartilharem conosco uma abordagem transversal da temática proposta, partindo-se da premissa de que as fronteiras entre a memória e a história, entre o tempo próximo e o distante ou entre as ciências humanas estão abertas e em constante movimento como a própria história e a historiografia. Uma premissa que coloca em questão as pretensões da representação objetificadora da história e seus limites, a responsabilidade individual e coletiva, as manipulações da “memória obrigada” e das comemorações na sua relação ideológica com o discurso do poder, conforme assinalado por Paul Ricoeur.

Propomos, desse modo, reflexões que estabeleçam um diálogo que nos aproximem de uma história decolonial e sua multiplicidade de enfoques e temas de estudo. Ponderações que articulem e transmitam essas experiências e a construção destas memórias, fundamentais para a edificação de um referencial crítico a respeito da história do tempo presente e da história pública. Nesse sentido, o dossiê deverá ser publicado ao final de 2022, observando-se os prazos abaixo, tendo como referencial os seguintes tópicos:

- Ditadura, Violações aos Direitos Humanos e Responsabilidade Empresarial

- Direitas e Empresas em Foco: Conexões, Colaboração e Adesão em Ditadura

- Ditadura e o Tempo Presente: Memória, Reparação e Identidade

- A América Latina e o Mundo: Exílio, Oposição e Resistência ao Autoritarismo

- A cooperação repressiva na América Latina e no Mundo

- Política Institucional: Partidos, Eleições e Permanências

- Produção Cultural: Resistências, Censura e Propaganda

- A Imprensa em Pauta: a Notícia entre o Passado e o Presente

- Movimentos Sociais, Questão Racial e Genocídio Indígena em Ditadura

- Participação Política, Feminismo e Questões de Gênero

- Mundos do Trabalho: Movimento Sindical e Resistência à Ditadura

- Arquivo, Memória e História do Tempo Presente

- Arqueologia e Antropologia Forense do Passado Recente

- Memória, Trauma histórico e as Representações da Ditadura

Além de trabalhos monográficos inéditos, serão bem-vindas análises comparativas ou que enfoquem as múltiplas relações e influências das várias formas de ditadura e autoritarismo, assim como das distintas resistências experimentadas no espaço latino-americano, entre outros, em contextos autoritários. Por fim, vale lembrar que a revista receberá textos em português e espanhol.

Referências Bibliográficas:

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