Sobre a Revista

A Revista Histórias Públicas tem o objetivo de promover um espaço de publicação e divulgação das atividades de pesquisa, ensino e extensão, incentivando reflexões, especialmente, sobre o campo da história pública, assim como a divulgação do conhecimento histórico, a utilização de novas tecnologias na área e a inovação do ensino de história. 

Chamada abertas para o Dossiê (2º. Sem. 2022):

Ditadura e Autoritarismo: necropolítica, negacionismo, arquivos e usos do passado

Organizadoras:
Janaína de A. Teles (UEMG)
Beatriz Kushnir (UNIRio)
Stella Segado (TeCMe - Argentina)

Cronograma: 

Submissões: até 25 de agosto de 2022

Publicação: dezembro de 2022

Este dossiê objetiva ampliar as análises e críticas do nosso tempo, no qual os grandes deslocamentos populacionais e a globalização, sob a égide do militarismo e do capital, tal como afirma Achille Mbembe, vêm impondo retrocessos significativos às experiências democráticas ao redor do mundo. Neste contexto, ganha particular interesse a regressão observada no Brasil e em grande parte da América Latina. Sendo estes espaços, nosso ponto de partida para as reflexões sugeridas. Por outro lado, a violência vivenciada nas democracias, caracterizadas por fundas raízes autoritárias, sobretudo, em nossa região, não é nova e exige atenção, tendo em vista que estão impregnadas pelos legados do autoritarismo e do racismo. A matriz histórica da democracia moderna, com efeito, sustentou-se na ordem imperial-colonial e na escravidão, cujos ecos se fazem sentir na atualidade.

Desde a perspectiva da História do Tempo Presente, as tiranias do século XX revelaram catástrofes e repetições traumáticas da violência, além de formas e proporções inéditas de controle da memória social. Na América Latina, por exemplo, além do legado da escravidão e do genocídio indígena, a onda autoritária que tomou conta da região desde os anos 1960 deixou como herança milhares de vítimas de desaparecimento forçado, transformando o luto e o lembrar em um problema sem fim. No Brasil, em especial, os familiares das vítimas fatais da ditadura militar ainda enfrentam muitos obstáculos para encontrar e identificar os restos mortais de seus parentes, ter acesso às informações sobre as circunstâncias das mortes, e punir os responsáveis.

Em contrapartida, a emergência de uma memória construída figurou entre as principais implicações e repercussões políticas e culturais das guerras e ditaduras da história recente. A era do testemunho, cuja ressonância é constantemente ameaçada pela atuação estatal, que busca apagar seus crimes e reescrever o passado, impôs uma reconfiguração da temática da memória, do papel dos vitimados, militantes e do testemunho. Desde a “virada subjetiva”, muitas das formas instituídas de memória social tomaram como preocupação central o registro e a evocação desses crimes e seus sobreviventes, gerando controvérsias e disputas a respeito de enfoques nacionais e políticos que legitimam histórias construídas pelo ou sobre o Estado, mas também sobre a relação entre memória e história e a construção de uma história “a contrapelo”, que desafie as generalizações de cunho iluminista e eurocêntrica, tal como ressaltado por Walter Benjamin.

A questão do direito ao luto e a desigualdade de acesso a ele, é um tema político fundamental desde Antígona. Atualmente, mais dramático, sobretudo, com o advento da necropolítica, onde a administração da morte pelo Estado, ou da pandemia do novo Coronavírus, estão na ordem do dia. Autoras/es como Judith Butler questionaram a vergonha com que se cobriu os mortos das epidemias de AIDS, assim como o ocultamento dos cadáveres da “guerra contra o terror” dos EUA, após 11 de setembro de 2001. A decisão sobre quais pessoas são dignas de luto é política, orquestrada pelo Estado com o objetivo de obter maior controle social. Esta reflexão pode ser estendida às milhares de vítimas da escravidão, do genocídio indígena ou aos crimes de lesa-humanidade cometidos pelas ditaduras na América Latina, que impuseram a censura e o desaparecimento forçado, a fim de evitar a comoção pública por aqueles considerados “inimigos do Estado” ou “outros”, passíveis de serem subjugados e exterminados. Esta “outrificação”, dispositivo de poder central desde o período colonial, continua a ressoar repetidamente na atualidade.

Desde essa perspectiva, convidamos as autoras/es a compartilharem conosco uma abordagem transversal da temática proposta, partindo-se da premissa de que as fronteiras entre a memória e a história, entre o tempo próximo e o distante ou entre as ciências humanas estão abertas e em constante movimento como a própria história e a historiografia. Uma premissa que coloca em questão as pretensões da representação objetificadora da história e seus limites, a responsabilidade individual e coletiva, as manipulações da “memória obrigada” e das comemorações na sua relação ideológica com o discurso do poder, conforme assinalado por Paul Ricoeur.

Propomos, desse modo, reflexões que estabeleçam um diálogo que nos aproximem de uma história decolonial e sua multiplicidade de enfoques e temas de estudo. Ponderações que articulem e transmitam essas experiências e a construção destas memórias, fundamentais para a edificação de um referencial crítico a respeito da história do tempo presente e da história pública. Nesse sentido, o dossiê deverá ser publicado ao final de 2022, observando-se os prazos abaixo, tendo como referencial os seguintes tópicos:

- Ditadura, Violações aos Direitos Humanos e Responsabilidade Empresarial

- Direitas e Empresas em Foco: Conexões, Colaboração e Adesão em Ditadura

- Ditadura e o Tempo Presente: Memória, Reparação e Identidade

- A América Latina e o Mundo: Exílio, Oposição e Resistência ao Autoritarismo

- A cooperação repressiva na América Latina e no Mundo

- Política Institucional: Partidos, Eleições e Permanências

- Produção Cultural: Resistências, Censura e Propaganda

- A Imprensa em Pauta: a Notícia entre o Passado e o Presente

- Movimentos Sociais, Questão Racial e Genocídio Indígena em Ditadura

- Participação Política, Feminismo e Questões de Gênero

- Mundos do Trabalho: Movimento Sindical e Resistência à Ditadura

- Arquivo, Memória e História do Tempo Presente

- Arqueologia e Antropologia Forense do Passado Recente

- Memória, Trauma histórico e as Representações da Ditadura

Além de trabalhos monográficos inéditos, serão bem-vindas análises comparativas ou que enfoquem as múltiplas relações e influências das várias formas de ditadura e autoritarismo, assim como das distintas resistências experimentadas no espaço latino-americano, entre outros, em contextos autoritários. Por fim, vale lembrar que a revista receberá textos em português e espanhol.

Referências Bibliográficas:

BENJAMIN, Walter. Sobre o conceito de história. Edição crítica. Organização e tradução de Adalberto Müller e Márcio Seligmann-Silva. São Paulo: Alameda, 2020.

BUTLER, Judith. O clamor de Antígona. Florianópolis: Edufsc, 2014.

_____ . Quadros de guerra: quando a vida é passível de luto? Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

KUSHNIR, Beatriz. Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI_5 à Constituição de 1988. 2ª. ed., São Paulo, Boitempo, 2012.

_____ . (org). Perfis cruzados: trajetórias e militância política no Brasil. Rio de Janeiro, Imago, 2002.

KÖSSLING, Karin. As lutas anti-racistas de afro-descendentes sob vigilância do Deops/Sp (1964-1983). Dissertação de Mestrado em História – FFLCH-USP. São Paulo, 2007.

MAUAD, Ana M.; ALMEIDA, Juniele R. de; SANTHIAGO, Ricardo (orgs.). História pública no Brasil: sentidos e itinerários. São Paulo, Letra e Voz, 2016.

MBEMBE, Achille. Crítica da Razão Negra. São Paulo, N-1 Edições, 2021.

____ . Políticas da inimizade. Lisboa, Antígona, 2017.

TELES, Janaina de A. Memórias dos cárceres da ditadura: os testemunhos dos presos políticos no Brasil. Tese de Doutorado em História. São Paulo, História/FFLCH-USP, 2011.

____ . “Eliminar ‘sem deixar vestígios’: a distensão política e o desaparecimento forçado no Brasil”. In: Revista M. Estudos so*bre a morte, os mortos e o morrer. Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p. 265-297, jul./dez. 2020.

RICOEUR, Paul. A História, a memória, o esquecimento. Campinas: Edunicamp, 2007.

ROUSSEAUX, Fabiana. Sancionar el Duelo. Desaparición, Duelo y Impunidad. El Caso Argentino. Disponível em: http://www.herreros.com.ar/melanco/rousseaux.htm. Acesso em: 12 de julho de 2021.

ROUSSO, Henry. A última Catástrofe: a História, o Presente, o Contemporâneo. Rio de Janeiro, FGV, 2016.

SANTOS, Flávia Medeiros. “O morto no lugar dos mortos: classificações, sistemas de controle e necropolítica no Rio de Janeiro”. In: Revista M. Estudos sobre a morte, os mortos e o morrer. Rio de Janeiro, v. 3, n. 5, p.91, jan./jun. 2018.

____ .; HATTORI, Márcia. “Dispositivos Estatais e Construção Social dos Mortos: apresentação do Dossiê”. In: Revista M. Estudos sobre a morte, os mortos e o morrer. Rio de Janeiro, v. 5, n. 10, p.188-199, jul./dez. 2020.

SEGADO, Stella; ROUSSEAUX, Fabiana (comps.). Territorios, escrituras y destinos de la Memoria. Diálogo interdisciplinario abierto. Buenos Aires, Trenenmovimiento, 2018.

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Dictadura y Autoritarismo: necropolítica, negacionismo, archivos y usos pasados


Este Dossier tiene como objetivo ampliar el análisis y las críticas en nuestro tiempo, en el cual los grandes desplazamientos poblacionales y la globalización bajo la égida del militarismo y del capital, tal como afirma Achille Mbembe, vienen imponiendo retrocesos significativos en las experiencias democráticas alrededor del mundo. En este contexto gana particular interés la regresión observada en Brasil y en gran parte de América Latina. Siendo estos espacios nuestro punto de partida para las reflexiones sugeridas. Por otro lado, la violencia vivenciada en las democracias caracterizadas por profundas raíces autoritarias, sobre todo, en nuestra región, no es nueva y exige atención, teniendo en vista que está impregnadas por los legados de autoritarismo y del racismo. La matriz histórica de la democracia moderna, en efecto, se sostiene en un orden imperial, colonial y en la esclavitud, cuyos ecos se hacen sentir en la actualidad.


Desde la perspectiva de la Historia de Tiempo Presente, las tiranías del siglo XX revelaran catástrofes y repeticiones traumáticas de violencia, además de formas y proporciones inéditas de control de la memoria social. En América Latina, por ejemplo, además del legado de esclavitud y de genocidio indígena, la forma autoritaria que se tomó en contra de la región desde los años 1960 dejó como herencia millares de victimas de desaparición forzada, transformando el duelo y la memoria en un problema sin fin. En Brasil en especial, los familiares de las víctimas fatales de la dictadura militar todavía enfrentan muchos obstáculos para encontrar e identificar los restos mortales de sus parientes, acceder a la información sobre las circunstancias de sus muertes y sancionar a los responsables.


En contrapartida, el surgimiento de la construcción de memoria figuró entre las principales implicaciones y repercusiones políticas y culturales de las guerras y dictaduras de la historia reciente. La era de testimonios, cuya resonancia está constantemente amenazada por la acción estatal, que busca acallar sus crímenes y reescribir el pasado, impone una reconfiguración de la temática de memoria, del papel de las víctimas y del testimonio. Desde un “giro subjetivo”, muchas de las formas instituidas de memoria social tomaron como preocupación central el registro y la evocación de esos crímenes y a sus sobrevivientes generando controversias o disputas al respecto de los enfoques nacionales y políticos que legitiman historias construidas por o sobre el Estado, pero también sobre la relación entre memoria e historia y la escritura de una historia “a contrapelo”, que desafía las generalizaciones de tinte iluminista e eurocéntrica, tal como lo ha resaltado Walter Benjamín.


La cuestión de derecho al duelo y las desigualdades de acceso a él, es un tema político fundamental desde Antígona. Actualmente, más radicalizado, sobre todo, con el advenimiento de la necro política, donde la administración de la muerte por parte del Estado, incluyendo los sucesos acontecidos con la pandemia del Coronavirus, está a la orden del día. Autoras/es como Judith Butler cuestionaron la manera vergonzosa con que se cubrieron los muertos en las epidemias de HIV, así como el ocultamiento de los cadáveres de la “guerra contra el terror” de los Estados Unidos, después del 11 de septiembre de 2001. La decisión sobre quiénes serían las personas dignas de duelo es política, orquestada por el Estado con el objetivo de obtener mayor control social. Esta reflexión puede ser extendida a los miles de víctimas de la esclavitud, del genocidio indígena y a las víctimas de crímenes de lesa humanidad cometidos por las dictaduras en América latina, que impusieron la censura o la desaparición forzada, a fin de evitar la conmoción pública por aquellos considerados “enemigos del Estado” o “Otros”, susceptibles de ser subyugados o exterminados. Está “otrificación”, es un dispositivo de poder central desde la época colonial, que sigue resonando repetidamente hoy.


Desde esta perspectiva, invitamos a les autoras/es a compartir con nosotres con abordaje transversal sobre la temática propuesta, partiendo de la premisa de que las fronteras entre memoria e historia, entre un tiempo cercano o lejano, o entre las ciencias humanas están abiertas y en constante movimiento como la historia misma y la historiografía. Una premisa que pone en cuestión las pretensiones de la representación objetivadora de la historia y sus límites, la responsabilidad individual y colectiva, las manipulaciones de la “memoria obligada” y las conmemoraciones en su relación ideológica con el discurso del poder, conforme lo señala Paul Recoeur.


De esta manera, proponemos reflexiones que establezcan un diálogo que nos aproxime una historia decolonial y su multiplicidad de enfoques y temas de estudio. Consideraciones que articulan y transmitan esas experiencias y la construcción de estas memorias, fundamentales para la construcción de un referente crítico respecto a la historia del tiempo presente e historia pública. En este sentido, el dossier deberá ser publicado a fines de 2022, respetando los plazos que se indican a continuación, teniendo como referencia los siguientes temas:


- Dictadura, Violaciones a los Derechos Humanos y Responsabilidad Corporativa


- Derechos y Empresas en Foco: Vinculaciones, Colaboración y Adhesión en Dictadura


- Dictadura y actualidad: memoria, reparación e identidad


- América Latina y el mundo: exilio, oposición y resistencia al autoritarismo


- Cooperación represiva en América Latina y el mundo


- Política Institucional: Fiestas, Elecciones y Permanencias


- Producción Cultural: Resistencia, Censura y Propaganda


- La Prensa en Línea: la Noticia entre el Pasado y el Presente


- Movimientos Sociales, Cuestión Racial y Genocidio Indígena en Dictadura


- Feminismos, Género e Interseccionalidades


- Mundos del Trabajo: Movimiento Sindical y Resistencia a la Dictadura


- Archivo, Memoria e Historia del Tiempo Presente


- Arqueología y Antropología Forense del Pasado Reciente


- Memoria, Trauma Histórico y Representaciones de la Dictadura


Además de trabajos monográficos inéditos, serán bienvenidos los análisis comparativos o que se centren en las múltiples relaciones e influencias de las diversas formas de dictadura y autoritarismo, así como las diferentes resistencias experimentadas en el territorio latinoamericano, entre otros, en contextos autoritarios.
Finalmente, cabe recordar que la revista recibirá textos en portugués y español.